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Crescer e Amadurecer

“Um trauma contra uma criança tem endereço certo no futuro.”
(Georg Groddeck)

            Uma mãe, um pai e o cuidar de uma criança. Um conjunto de sensações experimentadas por aqueles que fazem parte dessa trinca familiar. Dentre as sensações, anotamos as que se relacionam diretamente com o crescer e o amadurecer do infante, as boas, oriundas do primeiro choro, do primeiro sorriso, dos primeiros passos; as desagradáveis, advindas do primeiro tombo, do primeiro resfriado, da primeira febre, etc.

            Por oportuno, destacamos as sensações relacionadas com a psique dos impúberes, por elas receberem um grau a mais entre as desagradáveis, uma vez que o caráter abstrato do adoecimento somente é percebido pelo comportamento dos afetados no momento de suas interações sociais. É quando se evidencia a necessidade da busca pelo segurar para devolver a criança ao caminho do crescer e do amadurecer. Busca que, para muitos, pode chegar a um nível máximo da sensação de angústia se não for satisfeita a tempo e modo.

            Mas o que dizer dessa premissa crescer e amadurecer? E qual a importância do segurar para essa premissa?

            Então… em termos psicológicos, crescer necessariamente não implica em amadurecer. A título de exemplo, existe um dito popular que, de certa forma, sintetiza essa afirmação: “Há pessoas que passam de verde a podre!” O mesmo que passaram pela vida sem viver a experiência do amadurecimento psíquico. Em contrapartida, outras pessoas perfilam nas suas interações pessoais um nível de amadurecimento psíquico grandioso, evidenciado pela presença de uma “leveza” mental. E essa situação está diretamente ligada ao segurar da mãe e/ou do pai, com envolvimento ou não de terceiros.

            Percebam, uma criança leva um tombo. Se ocorrer um ferimento de menor gravidade, a criança de plana busca o “colo” da mãe e/ou do pai; se de maior gravidade, além do colo dos pais, há a necessidade da intervenção de profissional especializado. Notem que, no primeiro caso, são os pais que assistem a criança; no segundo, além dos pais, o especialista.

            Esse despertar por pedido de socorro na criança já vem com o nascer: o primeiro choro pedindo o peito materno ou de outro alimento para suprir a falta do leite. Aí se tem que a presença da mãe e/ou do pai é fundamental para o crescer dela, faz não só florescer como também fortalecer a sensação de segurança. Esclarecendo… quando se fala mãe e/ou pai, se quer dizer que, na ausência de um, a mãe ou o pai pode assumir ambos os papeis no processo do crescer.

            Vale salientar que essa mesma sensação de segurança é extensiva aos pais quando buscam o apoio em outras pessoas. O psicanalista Winnicott, discorrendo sobre o segurar, falou da importância da presença do médico numa cidade: pode até não precisar, mas o simples fato de estar ali permite que uma ou mais pessoas se sintam seguras, ou até mesmo toda comunidade. Nesse caso se estar falando do inconsciente coletivo. A guisa de exemplo, recentemente a dispensa de médicos contratados por um programa do Governo Federal gerou um estado de insegurança em muitas cidades e lugarejos Brasil a fora, causando uma sensação de desamparo.

Pois bem! A presença do psicólogo tem igual importância para garantir a sensação de segurança dos pais ou da coletividade, sobretudo porque uma psique perturbada é desencadeadora de somas no corpo, prejudicando diretamente o crescimento dos impúberes e a própria interação social de uma comunidade na qual ela se encontra inserida. Daí porque se ressaltar a relevância do amadurecer que, conforme anotamos anteriormente, nem sempre acontece com o crescer.

            Vejam… se a forma infinitiva de amadurecer levanta a questão, a flexionada, o amadurecendo, implica numa resposta de que o estado de desenvolvimento psíquico do ser humano deve ser uma constante, ou seja, constantemente em processo de amadurecimento. Acontece que um “tombo” psíquico no infante pode interromper esse processo. A anotação epigrafada traduz bem essa situação: “Um trauma contra uma criança tem endereço certo no futuro”. Futuro que, em muitas vezes, chega de imediato. Daí nasce a sensação de desamparo materna e/ou paterna, ou do envolto coletivo, se não houver a presença de um profissional da psique que possa inibir o trauma e desenvolver a criança ao deveras importante caminho do amadurecimento.

            Ainda sobre o amadurecimento… a psicanalista Melanie Klein acentuou: “COM RESPEITO ao adulto, a função da psicanálise é clara. Serve para corrigir o curso malsucedido que o seu desenvolvimento psicológico tomou.” Parafraseando Klein e desprovido de qualquer egoísmo intelectual, COM RESPEITO à criança, a função da psicologia é clara. Serve para corrigir o curso malsucedido que o seu desenvolvimento tomou, com uma ressalva: a imperatividade da utilização do elemento lúdico (brinquedos e brincadeiras) no processo de correção do curso.

            Tal imperatividade é bem compreendida pela leitura dos ensinamentos da profª Rosa Maria Lopes Affonso: “A utilização dos instrumentos lúdicos ou a compreensão das manifestações lúdicas no ser humano, nos seus diferentes contextos sociais, podem extrapolar a preocupação clínica, levando ao estudo das manifestações e aplicações da brincadeira simbólica dentro de um contexto de estimulação e intervenção preventiva da socialização infantil.” O que impõe como certeza que além da aplicação, há também a necessidade do estudo da ludoterapia para o segurar do infante.  

            Em síntese, essa é proposta de Crescer e Amadurecer: enquanto palco de discussão, levanta a questão do segurar, mas ao mesmo tempo se coloca como uma forte ferramenta de apoio psicológico no processo de crescimento e amadurecimento dos impúberes.

            Crescer e amadurecer estar aí, na cidade, numa página virtual, para o segurar da trinca familiar.

Marcos Cassiano
Psicanalista

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